Características da colonização portuguesa no Brasil

Características da colonização portuguesa no Brasil

José Alves de Oliveira Junior graduando em História pelo IFG campus Goiânia

 

Dentre o período de três séculos de colonização portuguesa na América, período que compreende dos séculos XVI ao XIX o Brasil se desenvolve sobre três características distintas: como uma sociedade agraria, de grandes proporções de terra em mãos das famílias aristocratas, escravocrata pelo uso de mão da obra dos negros escravos e híbrida pela miscigenação ocorrida entre negros brancos e indígenas, segundo o autor Gilberto freire em seu livro “Casa Grande & Senzala”. Para o autor esta sociedade se desenvolve patriarcal e aristocraticamente, as sombras das grandes plantações, a partir de uma iniciativa particular das famílias patriarcais, como ocorrera nas colônias inglesas da América do norte. Foi esta iniciativa particular que possibilitou a efetiva colonização agraria no Brasil, baseada na mão de obra escrava. O Brasil foi considerado pelo autor como uma sociedade hibrida em sua composição. Devida a tamanha facilidade do português em se misturar com outras raças. Com também uma predisposição a aclimatabilidade e sua mobilidade, percebida tanto na África como na Ásia. O autor revela o caráter patriarcal da colonização ao sugerir uma tolerância racial do português, percebida na inclusão do escravo negro nas relações familiares do senhor de engenho, assim sugerindo relações não antagônicas entre escravos e seus senhores. O autor ameniza a condição do próprio escravo ao dizer que ele fazia parte de uma camada social que era bem alimentada na sociedade, comparada a outros estratos sociais. Assim defendendo a “democracia racial” no Brasil, visto que havia uma tolerância e uma hospitalidade com estrangeiros por parte da população, que amenizava as relações entre os extremos. Diferentemente do autor Jacob Gorender que em seu texto “Categoria escravidão” destaca o caráter violento das relações entre escravos e senhores. O autor faz uma distinção entre a escravidão antiga no Império romano com a escravidão moderna nas Américas. Para ele entender as relações de trabalho é a categoria principal para entender a escravidão. Visto que o escravo negro é antes de tudo uma propriedade do seu senhor, e é tratado como coisa. Há uma coisificação do escravo, que é de caráter contraditório, pois a sua humanidade é reconhecida quando ele esta sujeito a penalidades jurídicas, quando comete crimes, ou quando ele reage ao próprio trabalho ao fugir, ou se revoltar contra seus senhores. O autor também ressalta a violência que o escravo sofria, sob o controle de capatazes e feitores que eram contratados pelos seus senhores como forma de controle dos escravos. O trabalho e o castigo estão bem associados neste período para o autor. Estas formas de coerção eram necessárias para manter a normalidade no funcionamento dos engenhos ou em outras instancias onde eram utilizadas mão de obra escrava. Diferente do autor Gilberto Freire que vê o negro incluso dentro da família dos senhores, laços afetivos com os negros mais próximos da família, ou seja, os que trabalham dentro da casa. Para o autor Jacob Gorender o escravo só trabalha, porque está sujeito a castigos sejam eles físicos ou simbólicos. A autora Katia Mattoso em seu texto “Ser escravo” faz uma diferenciação da escravidão ocorrida no Brasil e na África. Ela retoma a tese do autor Gilberto freire no que diz respeito ao caráter patriarcal da escravidão, retomando a subjetividade do escravo, do ponto de vista psicológico o escravo precisava fazer uma repersonalização ao novo mundo que lhe foi imposto, para garantir a sua sobrevivência. O escravo para adaptar se tinha que levar em conta todos os tipos de esforços; humildade, obediência e fidelidade. Por parte dos senhores podemos observar uma integração do negro à família patriarcal, como parte de um plano de manipulação do escravo, colocando em tarefas importantes dentro dos engenhos e até mesmo dentro de suas casas, por exemplo, para que o negro se sinta protegido e incluso na família. Observemos que os senhores tão paternais vivem, na realidade com um medo constante das reações imprevistas dos negros. No texto a autora faz uma retomada do escravo como sujeito ao perceber que o escravo podia modelar as suas tarefas e obrigações, como ponto de resistência ao sistema de trabalho em que estava inserido. Destaca a questão das fugas, dos suicídios, que para ela isto ocorre por causa da não adaptação do negro, diferentemente dos outros autores que veem na fuga, uma forma de resistência ao trabalho, e não uma simples questão de não adaptação. Por fim a autora ressalta a necessidade de solidariedade do escravo, tanto nas relações de compadrio com seus senhores, como no trabalho com seus iguais.

Transformações Econômicas e Políticas: Estados Oligárquicos e Economias Neocoloniais na América Latina (1880-1945)

Estados Oligárquicos e economias neocoloniais na América Latina (1880-1945)

 

José Alves de Oliveira Junior, graduando em História pelo IFG campus Goiânia

O Estado Oligárquico, A luta de classes e a transformação da sociedade oligárquica

No século XIX as colônias espanholas e lusitanas foram marcadas por transformações de ordem política e econômica. Tendo como ponto de partida, temos os primeiros processos de independência, que logo culminam na estruturação dos Estados nacionais latino-americanos. Neste processo que transcorre todo o século XIX, os novos países constituíram uma forma de Estado, que em cada região da América Latina assumia sua especificidade devido as sua heterogeneidade cultural, econômica e política. O Estado Liberal-oligárquico é a expressão superestrutural de um processo de implantação do capitalismo como modo de produção dominante da América Latina. A Oligarquia é o grupo de interesses que monopoliza as funções públicas, os processos políticos e os núcleos de poder. A oligarquia na América latina apresenta-se composta quase sempre por grandes proprietários de terras, companhias de exportação, importação e bancos. Entendendo a formação do Estado oligárquico como uma forma de Estado que surge anterior a fase imperialista (1870/80) e se associa profundamente a esta fase. Agustín Cueva em seu texto mostra o Estado Oligárquico como um Estado de caráter não democrático e assim, assumindo uma essência autoritária aproximando-se de uma modalidade política absolutista em algumas partes da América latina. O Estado Oligárquico assume formas diferenciadas e situações que variam de um país a outro. No Brasil ele aparece na época do império, porem ele se fortifica com a derrota do projeto democrático de Floriano Peixoto para prolongar-se até os anos de 1930. Na republica Dominicana (1880-1899), na Guatemala (1873-1920), na Venezuela (1870-1935), temos também o Porfiriato no México (1876-1910) e o Estado Plutocrático no Equador.

Segundo o autor a implantação deste tipo de regime em todo o continente Latino-americano obedece à conformação de um tipo de Estado que concordará com as demandas das transformações econômicas e sociais dos países. Agustín afirma que este Estado

em síntese não é se não a expressão de um processo de acumulação primitiva de poder capitalista, com a consequente acumulação desse poder, emerge de uma maneira sinuosa e conflitiva, através de um movimento que por um lado se encarrega de subordinar os elementos pré-capitalistas de poder, pela força quando é necessário, e por outro lado de aniquilar manu militari quase sempre, os elementos democrático-burgueses que levantam uma alternativa progressista de desenvolvimento capitalista (CUEVA, 1983, p.123).

Este Estado oligárquico pode apresentar como centro de poder: O exercito e a tecnocracia de Estado, o Congresso sob o controle das oligarquias e o poder executivo. Mas a sua base de sustentação será sempre a Oligarquia. No texto o autor destaca que a via oligárquico-dependente de desenvolvimento do capitalismo apresenta-se assentada na hegemonia dos Junkers ou boiardos locais, também os grandes comerciantes exportadores e importadores e do capital monopolista estrangeiro. Assim estes elementos entrelaçados formam a base do novo bloco dominante. Segundo o autor para a consolidação de tal propósito era necessário o enfraquecimento do poder econômico e social da igreja, para mais tarde a sua recomposição na estrutura global de dominação, mas como subordinada ao novo polo de poder.

Nas sociedades onde o capitalismo se desenvolve em enclaves, os elementos feudais ocupam lugar onde, nas formações avançadas corresponde aos latifúndios tipo Junker. A trilogia formada pelos Junkers, a burguesia “compradora” e do capital monopolista é substituída pela trilogia formada pelo capital monopolista, a burguesia intermediaria e os latifúndios feudais. Esta tendência que tem por objetivo organização do poder vai ao sentido de estabelecer o predomínio dos dois primeiros sobre o terceiro. Para o desenvolvimento do capitalismo o Estado oligárquico latino-americano tem a função de ser a encarregada de constituir as condições superestruturais para o desenvolvimento, portanto sua tarefa consiste em forjar um quadro jurídico-político para a acumulação primitiva de capital. Assim o Estado ergue-se em uma potencia autoritária para combater toda resistência que os grupos prejudicados possam oferecer. O Estado oligárquico se torna uma ferramenta para a condução da acumulação primitiva de capital, sob a dependência financeira, expropriando terras, constituindo legislação repressora regulada pela burguesia através do Estado, que criminaliza os movimentos resistentes. Alem de conduzir a dominação do trabalho através do colonato, encomienda reconfigurada e viabilizando a extração da mais valia do operariado em formação.

No segundo capitulo o autor trabalha a luta de classes e a transformação da sociedade oligárquica. Com a implantação da modalidade oligárquico-dependente de desenvolvimento do capitalismo latino-americano, a fase oligárquica é caracterizada pelo predomínio dos Junkers locais, da burguesia “compradora” e a aliança com o capital monopolista que se instala nos setores da atividade primário-exportador. A estrutura do Estado oligárquico na America latina se consolida e se finaliza em meio a uma diversidade e heterogeneidade própria do processo histórico, cujos contornos variam no tempo, nas formas e na intensidade das transformações ocorridas em cada país. Os processos de decadência das oligarquias nos países da America latina obedecem a uma ordem que só podem ser compreendidas se entendidas em sua dinâmica e intensidade. No México temos a revolução de 1910, no Brasil em 1930, na argentina onde se tem um movimento pendular de uma inflexão e de uma recobra do sistema oligárquico de 1930-1943, no Peru onde é prolongado até 1968, dentre outros. Como o autor nos mostra, é natural que existam estas diferenças, já que a transição da fase oligárquica a fase burguesa envolve modalidades que depende de cada matriz de estrutura. Depende da correlação de forças sociais, da orientação que a luta de classes vai adquirindo nos quadros nacionais e nas relações que nossos países estabelecem com o exterior. A transição da sociedade oligárquica para a sociedade burguesa na America latina não pode ser considerada como um mero reflexo das transformações que ocorrem no mundo como; a Primeira Guerra, a crise de 1929, a Segunda Guerra. Mas também não podemos deixar de considerar estes elementos como importantes para compreender o processo. Também segundo o autor, não é importante questionar se a revolução burguesa na America latina obedeceu aos moldes da europeia, mas sim tentar perceber se estas transformações aconteceram ou não, quais as modalidades concretas adotaram para a transição da economia agrária para a industrial, e quais foram suas profundidades e extensões. Ao analisar as formas de implantação do capitalismo, o autor mostra que a revolução democrático-burguesa na America latina não consistia no fim da ordem feudal, mas sim em transformar a modalidade reacionária de desenvolvimento do capitalismo em uma modalidade democrático progressista.

Por fim o autor destaca que a via de um desenvolvimento oligárquico-dependente é uma via que acumula contradições de todas as ordens, e é a partir daí devemos compreender o sentido da luta de classes em geral, e as perspectivas de uma revolução democrático-burguesa em particular. O autoritarismo do Estado oligárquico latino-americano, a repressão, a manipulação implícita em todo o processo de dominação burguesa, mostra o fato de o Estado oligárquico ter sido o Estado da ordem e do progresso, e não do consenso e da conciliação de interesses. Agustín Cueva destaca que a luta do campesinato contra o latifúndio, não configura um projeto político e social alternativo de sociedade. O proletariado em formação; disperso e jovem, com pequena acumulação política conduzia lutas contra os inimigos dos seus inimigos, (latifúndio, Igreja) e não contra o seu inimigo real, a burguesia. Segundo Cueva o proletariado atuou como uma força auxiliar. O papel das camadas medias urbanas constituídas de intelectuais e estudantes no processo de desmoronamento da sociedade oligárquica não é desprezível apesar de todas as suas limitações e contradições. As camadas medias burguesas inspiram movimentos liberais exaltados e militares reformadores, e geralmente dão sustentação a um projeto burguês-industrial no contexto de uma revolução democrático burguesa. O desfecho da luta de classes tendo como seguimento o desmoronamento do Estado oligárquico-liberal tendeu criar um Estado que modernizou o campo, que consolidou a classe burguesa no poder e articulou o desenvolvimento à dependência associada, na consolidação do capitalismo na America latina.

Economias de exportação (1870-1970)

No livro “Historia Econômica de América Latina” os autores Ciro Flamarion e Hector Pérez procuram estabelecer uma analise sobre a economia latino-americana, evitando limitar-se a reprodução da imagem do continente como um simples reflexo das transformações econômicas que ocorrem na Europa ou dos Estados Unidos. Dedicaram-se ao estudo dos sistemas agrários, das economias de exportação e do desenvolvimento do capitalismo na America latina. Segundo os autores a industrialização e o desenvolvimento econômico converteram-se em sinônimos após a Segunda Guerra Mundial. Esta assimilação surge após duas experiências históricas divergentes, como a: expansão do capitalismo durante os séculos XIX e XX, e a trajetória da industrialização soviética verificada entre os anos de 1928 e 1960. Para os autores o processo de acumulação de capital e o processo de industrialização são idênticos porque a aplicação das técnicas de mecanização é, tradicionalmente, muito mais limitada na agricultura do que na produção industrial. No texto percebemos uma analise que se centra nas questões que envolvem os mercados mundiais, a constituição do comercio internacional, o fluxo de capitais e o próprio desenvolvimento econômico. É destacado no texto três tipos de economias; as economias não colônias, que tendem a viver com a transmissão de estímulos entres os setores de atividade que compõe os departamentos I, II, III. As economias coloniais pequenas, com pequenos mercados internos. Estas economias convivem com processos e especialização produtiva nos produtos. Nas economias coloniais grandes e com mercados internos grandes, onde convivem processos de diversificação econômica, ainda que no século XIX este processo foi derivado de atividades agroexportadoras, mineroexportadoras e dominantes.

No texto os autores destacam as tendências e orientações geográficas do comercio exterior da America Latina. Estas tendências variam entre determinados períodos de expansão, como verificado entre os anos de 1850 e 1873, onde America latina expande seu comercio exterior acompanhando a expansão da economia internacional. Segundo os autores esta expansão está ligada pela expansão dos transportes (ferrovias, navio a vapor e etc.), pela expansão da industrialização da Europa e dos Estados Unidos, pela expansão da economia mineradora no estado da Califórnia, dentre outros fatores. Internamente a expansão do comercio exterior da América Latina foi impulsionada por reformas liberais e a expansão das ferrovias e demais estruturas de transporte e de exportação.

Entre os anos de 1873-75 e 1895-96 ocorre um crescimento moderado no comercio exterior da América latina, acompanhado pelo longo ciclo de desaceleração da economia mundial. Entre os anos de 1898 e 1913 percebe-se uma expansão rápida do comercio na America latina, acompanhado pelo ciclo de aceleração da economia Mundial. Assim em várias formas e intensidades temos a redução e expansão do comercio exterior da America latina. Entre 1914-1928 uma redução progressiva, que se estende de 1929 até 1946. Em 1947 temos uma expansão que vai até 1973. Nesta tendência sobre a orientação geográfica, os autores mostram que a partir do ano de 1950 em curso lento, houve a transição de um domínio britânico para o domínio norte-americano. No México, America central e caribe o domínio norte-americano suplantou o britânico na passagem do século XIX para o XX. Nos países da America do sul esta transição se constituiu em 1929-30, e na Argentina o domínio vai até 1950. A America do sul manteve suas exportações de matérias primas para a Inglaterra, e importações de insumos, de bens de capital e de bens de consumo duráveis nos EUA.

Como podemos perceber os autores analisam grau de integração da America latina no mercado mundial mostrando como fora sua orientação geográfica no comercio exterior. Para entendermos a modificação na composição do comercio exterior na America latina, temos três elementos; uma grande dependência de exportação de matérias primas, com um acrescente exportação de produtos manufaturados, dependência às importações de bens de capital e de insumos industriais. Também temos uma forte vulnerabilidade estrutural externa em função da concentração das exportações em poucos produtos, deterioração dos termos de troca e da transferência de estímulos econômicos para o exterior. No que diz respeito ao modelo econômico predominante na America latina, o modelo agroexportador, (…).

 

 

Referencias Bibliográficas:

CARDOSO, Ciro Flamarion E BRIGNOLI, Héctor Pérez. Economias de exportação (1870-1970). In: História econômica da América Latina. Rio de Janeiro: Graal, 1983.

CUEVA, Agustín. O Estado oligárquico, A luta de classes e a transformação da sociedade oligárquica. In: O desenvolvimento do capitalismo na América Latina. São Paulo: Global Editora, 1983.

A economia no Império, a ascensão do trabalho livre e a transformação da terra em mercadoria no Brasil

A economia no Império, a ascensão do trabalho livre e a transformação da terra em mercadoria no Brasil

José Alves de Oliveira Junior, graduando em História pelo IFG campus Goiânia

 

No texto do autor Caio Prado Junior “O império escravocrata e a aurora burguesa” podemos entender o funcionamento da economia no período imperial somando se a transformação do trabalho servil para o trabalho livre. Para entendermos a dinâmica e as transformações econômicas, sociais e políticas que ocorrem no Brasil no século XIX o autor começa a destacar dois pontos; um de natureza geográfica que é o deslocamento do eixo econômico das velhas regiões agrícolas do norte para as mais recentes do centro-sul, e outro fato se caracteriza pela decadência das lavouras tradicionais como; açúcar, tabaco e algodão, alem da produção de um gênero que até então tinha uma pequena importância, mas com os passar do século XIX vai configurar quase isolado na balança econômica do Brasil, o café. No texto o autor destaca o florescimento agrícola que ocorre nos fins do século XVIII e foi grandemente impulsionado pela emancipação política do país junto à abertura dos portos. As regiões agrárias voltam a se destacar no cenário econômico brasileiro, que antes tinham perdido para a mineração, e só com a decadência desta voltaram a se destacar. Já na primeira metade do século XIX a região centro-sul começa a tomar dianteira nas atividades econômicas do país, e na segunda metade já temos uma inversão completa de posições. O norte se torna decadente e estacionário, enquanto o sul, em pleno florescimento. Podemos perceber esta inversão quando a beterraba, um sucedâneo para a produção de açúcar, aparece no século XIX, tornando os países europeus e os Estados Unidos, alem de consumidores também produtores de açúcar, não somente para a necessidade própria, mas também para a exportação, assim gerando uma crise nos países produtores de cana. O autor destaca também a decadência de outros produtos, como; algodão que é deslocado pela concorrência norte-americana e o tabaco com as oposições ao trafico negreiro. No texto o autor vai mostrando outros elementos que justificam a decadência do norte, e a ascensão da região sul, como as condições climáticas e o fim do trafico negreiro externo que gerou uma crise de abastecimento de mão de obra na colônia. Caio Prado destaca que o sul foi favorecido porque nele se aclimatou admiravelmente a cultura de um gênero que tornou se no século XIX de particular importância comercial, o café. É somente no transcorrer do século XVIII que ele adquire importância nos mercados internacionais, tornando se principal alimento de luxo nos países no Ocidente, assim estimulando largamente sua cultura nas colônias tropicais e na Ásia. O texto deixa claro que o Brasil entrará muito tarde na lista dos grandes produtores, pelo fato de que desde a mineração a agricultura não despertava grande interesse. Mas o fator que estimulará a produção de café no Brasil se dá pelo fato de desenvolvimento do mercado norte-americano, após a independência da Inglaterra, assim constituindo uma nova política econômica que logo dará preferência a mercados mais livres da dominação britânica, em particular o Brasil. No primeiro momento temos uma predominância e o apogeu da produção de café, por parte do Rio de janeiro, mas ao longo do tempo temos o declínio, devido ao tipo de agricultura do Brasil, que esgotava as reservas naturais, por um sistema de exploração agrícola descuidado e extensivo. Assim substituído o Rio de Janeiro pelo oeste da província de São Paulo, centralizando-se em Campinas e estendendo se numa faixa daí para o norte de Ribeirão Preto. Esta região aos fins do século XVIII muito pouco povoada. A lavoura de café marca na evolução econômica brasileira um período bem caracterizado, durante três quartos de séculos concentra-se nela quase toda a riqueza do país; em mesmos em termos absolutos ela é notável: o Brasil se torna um grande produtor mundial, de um gênero que tomará o primeiro lugar entre os produtos primários no comercio internacional. Vivendo exclusivamente da exportação, que contava seriamente na economia do Brasil. No âmbito social e político o café deu origem a ultima aristocracia do país, depois dos senhores de engenhos e dos mineradores, os fazendeiros de café se tornam a elite social e política brasileira. O grande papel que São Paulo conquistou na política do Brasil até a sua liderança se deu por conta do café. Segundo o autor quase todos os fatos econômicos, políticos e sociais do Brasil se desenrolaram em função da lavoura de café, até a década de 1930. Assim como os grandes deslocamentos populacionais do norte para o sul e São Paulo, e o mesmo com a imigração europeia e a abolição da escravidão. O café trouxe ao Brasil um equilíbrio econômico, através da entrada do capital inglês e o reajustamento tarifário dentre outros fatores, permiti-se a construção de estradas de ferro, indústrias, aparelhamento dos portos marítimos, meios de comunicação e transportes, consolidando após 1850 relações capitalistas no Brasil.

No texto o autor Caio Prado Junior constitui uma narrativa em que ele destaca a questão da escravidão como um problema ao perceber que ela só entra em debate depois que se começa a reprimir efetivamente o trafico em 1850. Naquele momento aparecem no parlamento projetos emancipacionistas que visavam à liberdade dos escravos, constituindo alvoroço na câmara. Mas com o transcorrer dos anos o debate começa a amadurecer, alem de se começar a perceber os efeitos do fim do trafico negreiro externo. Com o fim do trafico de negros começa a ocorrer no Brasil uma falta de mão de obra que piorava ano após anos, agravando a situação, e levando ao desvio de escravos de umas regiões em detrimento de outras, como o caso das plantações de café que necessitavam de mão de obra, assim constituindo o trafico interprovincial; do norte em direção ao sul, más também prejudicando aquele que resolvia o problema do outro. Neste caminho começamos a perceber que a extinção do trafico negreiro veio acentuar as contradições do regime escravista. Segundo Caio Prado a solução deste problema foi à imigração europeia, que ocorre já no auge da campanha contra o trafico. Com o inicio da indústria manufatureira, que não empregavam escravos a não ser para tarefas secundarias e acessórias, começa se a perceber (o autor deixa explicito que sem contar vantagem financeira) que o trabalho assalariado tem mais vantagens que o trabalho do escravo. No primeiro momento começa procuravam meios de chegar a uma solução conciliatória e harmoniosa para que se constitua uma extinção da escravidão de forma gradual e suave, ao invés de uma abolição total e imediata, tendo em vista não ferir os interesses dos envolvidos. Assim tendo em vistas as pressões externas o governo começa a tomar uma serie de medidas para acabar com o trabalho servil de forma gradual, por exemplo, a aprovar leis como; a lei do ventre livre de 1871, a lei do sexagenário de 1885, assim protelando a escravidão até a sua abolição em 1888. No momento da decadência da escravidão está se constituindo a imigração europeia, que visava suprir a falta de mão de obra, cujo afluxo e a fixação no país foi provocada e estimulada por uma política oficial e deliberada de povoamento, ou pela iniciativa privada de particulares interessados na obtenção de mão de obra. No primeiro momento temos a reativação da política de povoamento, que distribuía aos colonos pequenos lotes de terra agrupados em grupos autônomos, aparecendo um novo tipo de colonização que fixava os colonos nas fazendas e lavouras, trabalhando como subordinados, num regime de parceria, mas que também permitia a formação de pequenos proprietários e camponeses independentes. No segundo momento ao abandonar o sistema de parceria, os trabalhadores serão fixados nas fazendas como simples assalariados. A partir deste momento a remuneração deixa de ser feita com a divisão do produto, passando para o pagamento de salários. Por fim o autor destaca que o progresso do trabalho livre foi em grande parte condicionado pela decadência do trabalho servil, ao colocar suas contradições a respeito da insuficiência tanto da qualidade quanto da quantidade. Assim o trabalho livre deixa de ser exceção e passa a ser o elemento de dissolução do trabalho servil, tendo em vista que os trabalhadores livres colaboraram com o movimento abolicionista ao levaram o exemplo da liberdade aos escravos.

No texto do autor José de Sousa Martins “O cativeiro da terra” podemos entender que a substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre não foi um processo fácil e rápido. O trabalhador entrou no processo produtivo como renda capitalizada, pois o fazendeiro tinha que pagar o transporte, alimentação e instalação do colono e sua família. Chegou um momento em que os colonos tomaram conhecimento de que estavam sendo explorados e se revoltaram. Como resultado dessa revolta, os cafeicultores modificaram os critérios de absorção do trabalho dos colonos. Resultando destas, surgiram diversas modalidades de relacionamento entre colonos e fazendeiros, mantendo-se a exploração do colono, porém de maneira mais discreta. No texto o autor apresenta que a fazenda consistia no conjunto de bens essencialmente constituídos pelos frutos do trabalho escravo, isto anterior abolição da escravatura, pois a terra era praticamente destituída de valor, devido às formas de sua ocupação, onde obedecia a dois caminhos, a ocupação de terras devolutas por parte do pequeno lavrador ou por cartas de sesmarias pelo grande fazendeiro. Mais valioso que a terra era os escravos e seu trabalho acumulado. Trabalho este compulsório, não pela falta exacerbada da mão de obra, mais sim pela regulação efetiva do comércio negreiro, fazendo que assim o escravo se torne o principal capital do fazendeiro. A terra passa a ser uma mercadoria que serviria de pagamentos hipotecários juntos ao banco, papel este exercido anteriormente pelo escravo. O fato de o escravo ser o capital do fazendeiro fazia com que a garantia de suas hipotecas perante o banco fosse o cativo, que eram transfigurados em renda capitalizada, porém o fato da proibição do trafico negreiro acarretou significativas implicações na economia do café, pois a mão de obra da lavoura que era o escravo aumentou significadamente o seu valor. A lei de Terras de 1850 e a legislação subsequente mostraram de forma clara os interesses dos fazendeiros e comerciantes, instituindo as garantias legais e judiciais de continuidade da exploração do trabalhador, ao destituir o trabalhador da compra e da posse da terra. O trabalhador livre trabalharia na grande fazenda e tinha a possibilidade de se transformar em proprietário somente com os seus ganhos, que mesmo assim estava condicionado pelos interesses do dono da fazenda.

Referencias bibliográficas:

MARTINS, José de Souza. O Cativeiro da Terra. 3. ed. São Paulo: Ciências Humanas, 1986.

PRADO JUNIOR, Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2006.

 

Cidadãos. Uma crônica da Revolução Francesa

O absolutismo atacado

José Alves de Oliveira Junior graduando em  História pelo IFG campus Goiania

 

O autor Simon Schama em seu livro, “Cidadãos. uma crônica da Revolução Francesa” mostra as causas da Revolução Francesa sob uma nova perspectiva. Ao fazer uma analise interna das causas da revolução. O autor mostra que no século XVIII na França, a nobreza não era um grupo homogêneo, pois era constituída por uma hierarquização política econômica e tinham diferentes interesses. No texto ele vai mostrando que alguns nobres constituíram comportamentos distintos. Nesta parte do livro o autor mostra como se constituía a sociabilidade entre os membros da aristocracia, destaca suas discussões no parlamento e a reivindicação do seu direito de reclamar. Malesherbes era um nobre que tomou posse no reinado de Luiz XV, que não respeitava a etiqueta da corte, pois andava maltrapilho, constituindo um comportamento irreverente. Ele inicia a sua carreira entre os anos de 1750 e 1775 ocupando duas posições muito importantes no parlamento. O nobre era um defensor do que muitos membros da elite consideravam “liberdades fundamentais”. A primeira, a liberdade de ler. Malesherbes nos anos de 1750 a 1763 foi o directeur de La librairie: o funcionário que decidia se o livro poderia ou não ser publicado. Sob a sua administração foram publicados praticamente todos os tipos de ateísmo declarado, panfletos declarando regicídio e pornografia, que chegavam até os membros das camadas populares. Alem das obras de Rousseau, Diderot e D’ Alembert.

No texto o autor mostra que as cortes tinham algumas funções, como “registrar” qualquer édito real, e só com a ratificação das cortes o édito poderia se tornar lei. Ainda no parlamento as cortes tinha o direito de reclamação. Na verdade estas reclamações eram admoestações ou protestos contra atitudes consideradas como violações das “leis fundamentais” do reino. Na medida em que a política fiscal de Luis XV se tornava mais agressiva após cada uma de suas guerras, as reclamações contra ele se tornava mais frequentes e combativas. A maioria das reclamações que provinham do parlamento referia-se a violação dos privilégios contida em impostos, mas o autor deixa claro que nem sempre privilégios e nobreza incluíam a isenção de impostos. O nobre Malesherbes usou a presidência para atacar todo o sistema de tributação, em especial as iniquidades de taxação e arrecadação. Em 1771 exasperado pela obstrução parlamentar o chanceler Maupeou convencera o rei Luis XV a suprimir as cortes soberanas em favor de corpos magistrados que faziam tudo que o rei mandasse. Os parlamentares defendiam que o rei devia governar sob a base contratual de que a coroa dependia do “povo”, enquanto o rei defendia a posição de que o rei deve a coroa somente a Deus. Sob o reinado de Luiz XVI Malesherbes tinha esperança de ser libertado de sua corte, antes de entrar no ministério de Turgot, publicou uma maciça reclamação do espírito e da letra do governo Frances. O rei Luiz XVI ao encarar a reclamação como um apelo para alterar seus fundamentos à natureza do governo encarou-a como enfadonha defesa de medidas especificas as quais não se opunha. O rei não se impressionou com o memorando sobre as municipalidades de Turgot, que propunha uma descentralização de governo mais drástica, das assembleias locais das cidades até uma representação nacional. Malesherbes pedia que o rei fizesse demonstrações públicas de seu interesse pelo povo, também pediu, a abolição das lettres de cachet (instrumento para decretar prisão sem precisar ouvir os acusados) e as propostas de tolerância publica com o protestantismo. No texto Schama mostra que o ataque ao “despotismo” e a “tirania ministerial” seriam impensáveis se não tivessem sidos sancionados pelo longo uso nas polemicas no parlamento. Desde os anos de 1750 havia um tom da resistência parlamentar a política do rei. Quanto mais desesperada a coroa buscava saídas para seus compromissos financeiros em taxas impostas à privilegiados e não privilegiados, mais os parlamentos se enfureciam. Os parlamentos representavam um esforço conjunto para substituir o ilimitado absolutismo de Luiz XVI, por uma monarquia mais “constitucional”. Neste novo regime eles seriam os representantes da “nação” patrulhando qualquer tipo de autoridade governamental. Assim neste embate entre parlamento e rei, por consequência, quanto mais às disputas com os parlamentos sobre a política religiosa e tributaria no final de seu reinado, se tornava mais ásperas, o rei se tornava mais absolutista. O discurso de Luiz XV expressava uma cólera fria de relação à ideologia parlamentar. Mas o caráter defensivo de sua argumentação da indivisibilidade do poder legislativo constituiria um reconhecimento implícito de que tal axioma estava de fato ameaçado (SCHAMA, 2005).

Segundo o autor os parlamentos eram uma instituição que se compunham de treze cortes soberanas, sediadas em paris e em centros provinciais, cada qual compreendendo um corpo de juízes, que em diferentes parlamentos iam de 50 a 130. A sua área de jurisdição variava muito: em regiões mais remotas, os parlamentos atuavam na condição de cortes regionais. O texto de Schama destaca que os parlamentos tinham um leque de funções amplo, mas o que dificultava em especial à circunscrição de seu poder era que também dividiam com os burocratas do rei, intendants e os governadores. O parlamento era, pois, uma instituição e um etos nos centros comerciais mais dinâmicos da França, representavam o meio através da qual a riqueza bruta se traduzia em status legal e dignidade política. Nas pequenas cidades a economia e a sociedade da região giravam em torno se sua presença, com regimentos de escribas, pequenos advogados, e intercessores, livreiros, sem falar nos profissionais subalternos que alimentavam seu aristocrático estilo de vida, fabricantes de carruagens, peruqueiros, professores de dança dentre outros. E nesse sentido se constituíam uma solidariedade social entre os robins e seus concidadãos. As residências dos parlamentares, que abrigavam as cortes eram enormes construções, e sediavam grandes reuniões. Muitos vendedores de livros expunham exemplares baratos de estampas sátiras, frequentemente contra o governo, porque nesse lugar estavam a salvo da policia. Esses lugares eram onde uma torrente de mexericos, boatos e escândalos convergiam para formar um vasto rio de insinuações que se dirigiam aos jornalistas e traficantes de calunias. Os parlamentos se tornam um foro de afirmações políticas articuladas através de reclamações.

Os parlamentos tinha uma consciência de que não poderiam atacar a coroa, pois haveria outros riscos, como o exemplo a explosão de uma rebelião popular, muito ameaçada por sinal. Os treze parlamentos eram os arbitrariamente divididos, do único organismo que exercia restrições legais a monarquia, assim progressivamente o direito de reclamação se transforma em um direito de representar. Em 1775 o rei reestabelece o parlamento, em um momento de acalorado clima político. Para o autor a nobreza se articulava com as relações da cultura burguesa, mostrando as formas de ascensão a nobre, como; mérito, serviços e talentos. O autor desconstrói a tese hegemônica de que a nobreza era inimiga do empreendimento comercial ao mostrar que os nobres, eram profundamente envolvidos em finanças, negócios e indústria, e a metalurgia que era uma importante atividade econômica. A nobreza recebeu influencias dos valores burgueses: dinheiro, serviço publico e talento (SCHAMA, 2005). No texto também é destacado que os privilégios não eram concedidos somente aos nobres, pois a coroa ampliava os privilégios à dezenas de plebeus, ou por cargos públicos, ou através de casamentos com membros de famílias privilegiadas na tentativa de mobilizar sua autoridade, permitindo uma ascensão a nobre. O autor destaca que a burguesia não era o produto de uma reação aristocrática e sim o produto de uma modernização da aristocracia, Malesherbes representava uma nobreza moderna, que revindicava uma monarquia com poderes limitados. Ao mostrar que muitos nobres franceses “nadavam em dinheiro” quando poderiam dar-se ao luxo de dispensar muitos de seus privilégios, também mostra que havia nobres pobres que viviam como camponeses e se agarravam mais em seus privilégios. Em 1788 e 1789 estas duas nobrezas de fato se dividiram – em função de geração e convicção mais do que status social ou posição econômica (SCHAMA, 2005). Segundo o autor entre os nobres mais pobres, parece que a posição mais unanime era contraria a abolição de suas prerrogativas, e pela primeira vez eliminou-se a distancia entre, os poucos e sofisticados poderosos e os muitos anões da nobreza, quando estes últimos ditam a posição coletiva do Estado nobre. Para Schama a desintegração da velha ordem ocorreu não quando estranhos desesperados com sua exclusão dos privilégios decidiram destruí-la. Pelo contrario, a desintegração partiu de dentro, dos enamorados pela visão de aristocratas-tornados-cidadãos de d’ Argenson, derrubando as paredes de seu próprio templo e proclamando o advento de uma monarquia democrática.

A formação cultural de um cidadão

         A análise feita sobre as causas da Revolução Francesa no texto de Simon Schama destaca que a nobreza francesa não se constituía como uma nobreza homogênea, e sim heterogênea em suas atuações políticas e econômicas e em seus interesses. Ao perceber que havia uma hierarquia onde coexistiam nobres muitos ricos, que se envolviam em atividades ditas “burguesas” como, indústrias, negócios e finanças. Mostrando uma nobreza empreendedora, que não media esforços para enriquecer, seja por casamento com burgueses, ou não. O autor destaca que estes nobres poderiam dar-se ao luxo de dispensar seus privilégios, pois a defesa dos mesmos, não significa defender pelo seu valor pecuniário. Alem desta parte rica o autor destaca que para cada nobre empresário havia dez vegetando em suas propriedades rurais, na condição de refinados maltrapilhos, que seria sua grande maioria, cerca de 60% da nobreza que viviam em condições que variavam de modesta decadência a total indigência. Segundo o autor muitos viviam em condições idênticas a dos camponeses, por isso esses membros mais pobres da nobreza se agarravam mais fortemente em seus privilégios.

Assim o autor mostra que foi a primeira vez que as distancias entre esses grupos foram eliminadas , quando a maioria, os nobres mais pobres ditaram a posição coletiva do Estado nobre. Em analise das causas da Revolução o autor mostra que a desintegração da ordem partiu de dentro, internamente ao perceber a contradição dos membros de uma mesma ordem, que tinham interesses diferentes.

São inúmeros os exemplos de uma fusão cultural que ocorreu na Europa do século XVIII. No do texto, o autor dá uma ênfase maior na sociabilidade das camadas populares, e destaca a influencia do balonismo ao fazer uma longa descrição das experiências que os franceses tiveram com essa moda. Mostrando que tinha um publico enorme e entusiasmado. No texto o autor destaca as reuniões para sediar eventos como a subida de balões, era para poucas plateias, como por exemplo, o autor mostra o do palácio de Versalhes. No chão o balão até certo ponto era um evento da aristocracia, mas quando no ar, se tornava democrático e publico. Alguns inventores conseguiram constituir uma relação de camaradagem imediata e concreta com as multidões. Fazendo referencia experiência, da gama de emoções ilimitadas quando os via comportarem-se exatamente como as multidões não deviam se comportar no Ancien Régime. O autor destaca que os únicos eventos em que a população participava eram procissões religiosas ou desfiles cívicos. As ordens dos participantes, a roupa, e os atributos carregavam determinada coerência e a estruturas das ocasiões. A física modificou tudo isso destaca o autor.

Como espetáculo, era imprevisível; suas multidões eram incoerentes, espontâneas visceralmente agitadas. Todavia não constituíram nem um tropel (un attroupement), nem um aglomerado casual. A sensação de que testemunharam um evento libertador – pressagio de um futuro que pairaria livremente – dava-lhes uma espécie de companheirismo temporário a céu aberto, sob a garoa do verão parisiense ou a neve do inverno Lionês. Embora menos calistênico que a ginástica neoespartana recomendada por Rousseau (e mais tarde ordenada por jacobinos), exemplificava a visão do filosofo de um festival de liberdade: relances do Sublime em que era nobre a experiência, e não a plateia (SCHAMA, 2005).

Os balões constituíram um espetáculo em que se atraia qualquer tipo de publico na qual as distinções sociais desapareciam em meio ao entusiasmo dos espectadores. Nas ultimas décadas do Ancien Régime, Schama destaca alguns fenômenos culturais em que se mesclavam gostos populares e aristocráticos nos mesmos espaços, como, a diversidade do publico no teatro, musica popular, e exposições de bienal no Salão. Esses fenômenos provocaram eliminação das distinções tradicionais de ordem social e legal, (preservadas nas formas de Artes oficiais autorizadas pela Monarquia) em um mesmo espaço. Assim constituindo um misto de todas as ordens do Estado, de todas as posições sociais, de idade e sexo (SCHAMA, 2005).

Segundo o autor este mesmo processo de ruptura das relações sociais ocorriam também no Teatro. Os teatros parisienses se dividiam em dois mundos. O drama de bom gosto e respeitabilidade nos teatros oficiais. Onde se tinha também a Opera. Do outro lado temos os teatros de Bulevar, nas quais farsas obcenas cheias de gírias e humor barato competiam com equilibristas e espetáculos de curiosidades. Nas ultimas décadas do Ancien Régime percebe-se que o teatro oficial começa a perder sua vitalidade, enquanto o teatro popular se tornava a principal atração. Neste momento o autor destaca que estava acontecendo a formação de um único publico de teatro, que se estendia da corte real até vendeiros, comerciantes e outros. Mas que estes grupos de distinções sociais tão diferentes quando são colocados em um espaço limitado, constituíram incidentes isolados de hostilidades.

É difícil saber se a mescla social evidente no publico de teatro e entre os frequentadores dos jardins dos prazeres pode ser um indicador preciso do colapso da hierarquia na França do Ancien Régime. Afinal estamos lidando com a Paris metropolitana no que se tinha de mais a vontade. Porem com esse fervilhante pano de fundo tal mistura realmente transformou incidentes isolados de hostilidades entre os grandes e pequenos, privilegiados e cidadãos, num tipo exemplar de drama social e político: o do anacronismo. Nesse sentido houve de fato ensaios para o grande teatro dos Estados Gerais em atividade na plateia de Paris (SCHAMA, 2005).

No teatro temos exemplos que mostram o quanto a política afetava o teatro, mas também como o teatro era capaz de afetar a política. O exemplo mais claro sobre isso foi o a peça, “O casamento de Fígaro”. As circunstâncias em que a peça estreou são interpretadas como um estagio que iria o caminho para a quedo do Ancien Régime. Beaumarchais que era um membro desta nobreza moderna, e através de suas obras tira sarro da nobreza em uma batalha contra o despotismo opressor e a favor de liberdades dos cidadãos. No texto podemos perceber uma quebra da hierarquia dentro dos teatros, pois para assistir os espetáculos, tinha que se pagar um valor pela poltrona, assim qualquer um poderia assistir às peças pagando um valor sem distinção de ordem social.

O acesso a esses lugares se constituíam não pelo status social e político, e sim por aspectos econômicos. Nesta parte do texto o autor nos mostra a criação de uma sensibilidade social e política por parte das camadas mais populares do Ancien Régime. Na Paris do século XVIII o autor mostra à contribuição das publicações que criticavam o rei, as artes, a pornografia que contribuíram para a formação de uma opinião publica.  Muitos contemporâneos descreveram a onda de sentimentos que envolveram as multidões aglomeradas diante as obras de artes.

A drástica modificação cultural representada por essa primeira erupção de sensibilidade românica tem mais do que importância literária. Significação a criação de um estilo falado e escrito que se tornaria a voz padrão da revolução, partilhado tanto por suas vitimas como por seus mais implacáveis promotores. O discurso de Mirambeau e Robespierre, as cartas de Desmoulins e madame Roland e os festivais orquestrados da republica dirigem-se a alma, a humanidade terna, verdade, virtude, Natureza e ao idílio da vida em família. As virtudes proclamadas na tela de Greuze formavam a base moral da que a revolução entenderia por virtude. “é a virtude que adivinha com a velocidade do instinto o que será útil para o proveito geral”, escreveu Mercier em 1787. A razão com a sua linguagem indisiosa, pode pintar a mais equivoca das empresas em cores cativantes (SCHAMA, 2005).

As voltas aos antigos que o autor chama atenção nos mostra como a retórica e a oratória são importantes elementos para a construção dessa opinião publica, a dicção equivalia, pois, a poder publico. O autor mostra a admiração dos heróis e do patriotismo da Republica Romana.

Não havia duvida de que a geração revolucionaria encontrou modelos estimulantes nos heróis da antiguidade republicana – e ao mesmo tempo essa admiração aguçou sua opinião de que os estereótipos da época em que viviam correspondiam aos piores excessos da dourada corrupção criticada nas histórias romanas. Por exemplo, leram na conspiração de catilina, de salustio, que após a queda de Cartago “a virtude começou a perder o brilho em consequência da riqueza, luxo e avidez”. Em contrapartida na era de ouro da Republica (SCHAMA, 2005).

O cidadão se constitui nesse processo onde se começa a ter certa sensibilidade sobre a política e a sociedade fazendo-se uma geração revolucionaria crescer sintonizada com essa elaborada forma de se expressar. No texto o autor ao fazer referencia a difusão de muitos tipos de obras escritas, como por exemplo, a pornografia, e percebe que Daniel Roche descobriu números surpreendentes de adultos alfabetizados na capital no final do Ancien Régime. Isso se deve por causa de “escolhinhas” promovidas pelas missões católicas do século XVII e XVIII. É evidente que o que a população não a ligava diretamente com a opinião publica, porque não liam diretamente das fontes de Rousseau, mas o texto destaca que a literatura popular transmitiam as mesmas mensagens: inocência corrompida, perversidade do dinheiro urbano, e brutalidade do poder e aventuras sexuais. E assim se constituía a literatura informal onde se tinham almanaques, notas fixadas em lugares públicos que cada vez mais ligava as pessoas comuns das cidadezinhas francesas com o mundo dos eventos públicos. O autor destaca, que o chamado de Império da Palavra, seja falada, cantada, declamada ou lida no final do Ancien Régime ampliou suas fronteiras. Mas embora ela atingisse o auge em Paris, de modo algum constituía um fenômeno exclusivamente metropolitano.

O autor mostra no final desta parte que os Cidadãos, tiveram suas personalidades individuais e coletivas já formadas me meados da década de 1780. Eram devotos da natureza, tinham bom coração, desprezavam a moda e a ostentação dos poderosos, eram apaixonados em seu patriotismo e enraiveciam com os abusos do despotismo. Acima de tudo eram apóstolos da virtude publica que viam na França prestes a renascer como republica de amigos. E foi assim, de braços dados, penas atarefadas para rabiscar discursos, que o exercito de jovens cidadãos assistiram a queda da monarquia Francesa.

Os custos da modernidade

Com base na analise do autor Simon Schama sobre a os anos que antecederam a Revolução Francesa percebemos que o Antigo Regime não se opõe a modernidade econômica, visto que em quase todos os aspectos que a grande fase de mudanças não foi ao momento da Revolução, mas sim nos finais do século XVIII.  Ao dizer que a Revolução interrompeu como catalisou a modernidade. Em 1795 o valor total do comercio não chegou à metade do que foi em 1789: em 1815, girava em torno de 60%. O impulso da mudança econômica e social na frança só cresceu quando a Revolução e o Estado militar criado em seu processo desapareceram. O autor usa o argumento de que os privilégios, não se davam pelo berço, e sim por dinheiro e mérito para mostrar que a formação de uma economia ou um Estado moderno não era incompatível com o antigo Regime. O antigo regime não era uma sociedade que caminhava para o tumulo, visto que nos finais do século XVIII mostra sinais de dinamismo e energia em todos os setores. Neste período como mostra o autor, do rei para baixo a elite estava ligada muito com a ciência. Em 1785 foi uma iniciativa da realeza que ampliou a Academia de Ciência para incluir mineralogia, história natural e agricultura, citando matemáticos, químicos, astrônomos, mineralogistas o autor destaca a parceria entre Governo e Academias. Na parceria entre Governo e Academias o entusiasmo não se dava somente pela parte teórica, sempre que a coroa e o governo podiam aplicavam novos dados para objetivos práticos, melhorando armas militares, laboratórios químicos destinados à indústria. Essas mudanças também ocorriam na Medicina com a distribuição de circulares sobre ecologia e doenças locais e cursos básicos de obstetrícia. O autor destaca que sempre que podia o Governo se ocupava com a higiene publica ao se preocuparem com o lixo e os cemitérios.

Segundo o autor existia um atraso crônico na produção agrícola, mas que havia um padrão de produção e modernização que foi destruído pela Revolução. Em 1780 mercadorias, correspondência e passageiros deslocavam-se pela frança num ritmo volume e frequência muito diversos. Ao falar da economia o autor destaca questões sobre as comunicações aprimoradas através de uma rede de canais e estradas, significando uma expansão de mercados. Se a frança ainda estava longe do mercado nacional unificado existente na Inglaterra, pelo menos emergia de seu provincianismo (SCHAMA, 2005). O comercio externo era elevado como sempre as vésperas da Revolução. A indústria francesa crescia no final do Antigo Regime, superando a taxa de crescimento em alguns setores dos da Inglaterra. Seria tolice deduzir que a França passava pelo mesmo tipo de industrialização explosiva que ocorria na Inglaterra, mas é igualmente indiscutível que as vésperas da Revolução a curva apontava para cima (SCHAMA, 2005).

O numero de novas empresas envolvendo a mecanização aparecem cada vez mais frequente na década de 1780, reunindo capital e tecnologia, servindo para reativar as minas de cobre de Bigorre, nos Pirineus Franceses. No texto o autor destaca que os mais otimistas historiadores dessa época diziam que havia duas Franças. Uma era a frança da bacia parisiense e da periferia, modernizando-se e expandindo com o florescente comercio. A outra era a França do centro fechada em velhas tradições locais de oferta e procura. Mas destaca que esse contraste mostra uma boa dose de verdade, mas esconde uma parte importantíssima que tendiam em despertar a frança das velhas tradições tornando-as mais homogênea a difusão da Indústria e do comercio. O autor mostra a relação do capitalismo com o Antigo Regime, mostrando a utopia da modernidade que misturava concepções da republica perfeita de Rousseau e Condorcet que concretizaria não por meio da Revolução ou da violência, mas pela simples e gradativa operação de juros compostos. A fantasia suprema de uma França que se modernizava sem esforços, com a sabedoria coletiva, e do capital poupado não em proveito próprio, mas em beneficio do mundo todo. E por outro lado outros que viam na modernidade uma maldição. Muitos desses pessimistas eram otimistas desencantados como Simon Linguet, que se enchiam de tristeza e maus presságios. Ele expressa isso quando fala, “O capitalismo industrial prometia o céu e dava o inferno. Fazia do empréstimo um novo senhor e de seus trabalhadores urbanos trogloditas subumanos”. Nesta perspectiva o autor mostra como se constituía o pensamento sobre o capitalismo, ao destacar embate entre modernidade e não modernidade por parte dos que eram adeptos e os que eram contrários levando em conta suas perceptivas. De acordo com o que foi mostrado no texto de Simon Schama podemos perceber a inexistência de uma cultura econômica diversa entre o terceiro Estado e elite nobiliárquica, visto que a nobreza não se distanciava das relações capitalistas, e que se existiu uma burguesia esse grupo se encontrava no seio da nobreza e do clero.

Bibliografia

SCHAMA, Simon. Cidadãos. Uma crônica da Revolução Francesa. São Paulo. Cia das Letras, 2005.

 

O conceito de Revolução

O conceito de Revolução

 José Alves de Oliveira Junior graduando em História pelo IFG campus Goiânia

O que foi a Revolução francesa? ou  o que foi a Revolução Industrial? ou até mesmo antes, a Puritana ou a grande rebelião, nome pelo qual os seiscentistas conheciam as guerras civis ocorridas entre os anos de 1642 e 1660 na Inglaterra, e foi intitulada de revolução por François Guizot no século XIX, que contribui ao do autor Kosellek para a historicização do conceito de revolução apresentado em seu livro o “futuro passado”. A palavra revolução é largamente disseminada dentro do vocabulário político moderno, e é um termo que possui um campo semântico tão amplo e sua imprecisão conceitual é tão grande que dificulta a sua compreensão.

Segundo apresentado no texto de Kosellek a palavra revolução era um termo estritamente do campo da astronomia e que, revolução significava então, primordialmente um movimento cíclico, ou seja, um movimento de retorno. Revolução inicialmente foi um conceito físico-politico que em tom natural alude ao ciclo das estrelas e o movimento dos corpos celestes, a qual por sua vez Copérnico colocou a disposição um conceito de revolução que acabou por desembocar no vocabulário político.

O conceito de revolução não é unívoco. Ele varia desde sangrentos movimentos de deposição ou golpes políticos e sociais até inovações cientificas decisivas, podendo significar tudo isto ao mesmo tempo, por exemplo, revolução francesa, industrial. O conceito de revolução moderno pode ser definido como um conceito geral, que encontra no mundo tais as condições previas para todo o seu entendimento, mas cujo seu significado sofre variações dramáticas de um pais para o outro, de uma situação política a outra. O conceito de revolução no texto é apresentado como um produto linguístico de nossa modernidade. Desde o século XIX tornou se comum distinguir entre uma revolução política, uma revolução social ou uma revolução técnica e industrial. E desde a revolução francesa a expressão adquiriu possibilidades semânticas flexíveis, ambivalentes e ubíquas. Os iluministas encontravam na palavra revolução um conceito conhecido, pois “estava na moda” e tudo aquilo que se descrevia era compreendido a partir da comoção e da transformação. A revolução abarcava tudo, os costumes, a religião, economia, nações, Estados e continentes, em fim todo o globo terrestre. Assim o conceito originalmente é natural e, portanto tras-historico dissemina seu significado parcial e metafórico que acaba por se tornar predominante. O movimento abandona sua base natural para adentrar a atualidade do cotidiano. Desta forma o termo revolução veio a Luz o âmbito de uma historia genuinamente humana.

A palavra “revolução”, na época de Aristóteles, significava, grosso modo, um movimento cíclico ou um retorno. Porém os acontecimentos incontroláveis de 1789 na França alterariam o entendimento do termo. A partir de então passou a representar todas as revoluções, mas tendo como base a Revolução Francesa. Para o autor o termo evoluiu para a forma de um “coletivo singular”. No texto o autor destaca que revolução se torna um “coletivo singular”, que parece concentrar em si as trajetórias de todas as revoluções particulares. E é assim que revolução se torna um conceito meta-histórico, separando-se completamente de sua origem natural e passando a ter por objetivo ordenar historicamente as experiências sociais. O conceito de revolução retoma para si, desde 1789, a lógica da guerra civil, a luta, uma vez decidida com todos os meios disponíveis, legais e ilegais, passa a pertencer, segundo a óptica do revolucionário profissional moderno, ao decurso planejado da revolução. Assim se pode servir de todos os meios, pois acredita que a revolução é legitima. Revolução se torna todo processo que resulta em transformações em algumas esferas da sociedade.

A autora Eunice Ostrensky em seu livro “As Revoluções do Poder”, destaca a Revolução de 1642 (Revolução Puritana) período entre 1642 e 1649, chamado pela autora de “períodos fatais”, anos de crise da soberania em que surgem debates sobre republicanismo, limites do Estado, Poder e liberdade. Esses vocábulos, complexos em sua definição mesmo fora do contexto revolucionário, ampliam suas possibilidades de definição em momentos de embate político. O ápice da “Grande Rebelião”, como era chamada então a Revolução Inglesa, se daria em 1649, com a condenação e execução de Carlos I. “Nunca antes se havia julgado, condenado e executado um rei publicamente. No passado, coroas usurpadas e reis cruéis haviam merecido execuções que se fizeram pelas costas, no escuro, porque nem mesmo os assassinos (…), pensavam em contestar a monarquia” (p. 41). Na Inglaterra do século XVII, o conceito de revolução remete quase sempre a dois sentidos distintos, invariavelmente relacionados à astronomia ao que hoje intitulamos física. O primeiro sinônimo de circunvolução e designa o processo cíclico de geração, corrupção e morte pelo qual passam toso os seres, mesmos os corpos das republicas. “Nem todos os corpos celestes que giram em torno do próprio eixo e em torno de outros corpos, nem os corpos políticos, fadados a nascer e a perecer, estão livres desse movimento circular, que alguns autores – especialmente os republicanos – também viram como uma sorte de destino inexorável”. No que diz respeito à política, as grandes mudanças não mais são causadas pela mera instabilidade dos regimes, devendo ser também entendidas no interior de uma estrutura de ambição realmente explicativa. No texto a autora explicita que por mais que os agentes da revolução sejam homens e não planetas ou astros; por mais que mudanças investigadas pelo filosofo pertençam à ciência civil, e não a ciência da natureza, o conceito de revolução não tem, nos dois sentidos examinados pela autora uma implicação claramente política. Apenas com a Revolução Francesa o conceito se tornara um importante instrumento de compreensão da política designando os episódios históricos nos quais agentes humanos haviam produzido o colapso de uma ordem política, social ou econômica, e a emergência, em seu lugar, de novos valores ou regimes. Ostrensky em seu texto pergunta; em que medida a Grande Rebelião foi uma revolução? A grande rebelião sujeitou a Inglaterra a mudanças na estrutura do Estado e representou um ciclo de geração, corrupção e morte de pelo menos dois governos, a república e o protetorado.

A Grande rebelião também consolidou a mutação da monarquia em oligarquia, esta passando a uma democracia, até voltar ao que era no inicio. Mas podemos julgar que os numerosos efeitos de todas essas mudanças não levaram a Inglaterra de 1660 de volta ao ponto em que estava em 1642. A monarquia restaurada em Carlos II não era a mesma coroada em 1625 com Carlos I. Se as concepções “antigas” de revolução nos permitem pensar as transmutações e alternâncias, o conceito moderno, no qual o colapso de uma ordem provoca a ruptura das relações sociais, políticas e econômicas então vigentes, permite refletir sobre mudanças profundas e definitivas a respeito do que aconteceu no passado. O conceito de revolução após a revolução francesa muda seu significado e passa a fazer parte do vocabulário político. Para a autora revolução é uma grande ruptura que provoca mudanças nas esferas de toda a sociedade. O livro didático de Luiz Koshiba “Historia: origens, estruturas e processos” propõe uma reflexão dos conceitos. O termo revolução é usado no livro em seis capítulos divididos pelo autor; A Revolução Neolítica, As Revoluções Inglesas do século do século XVII, A Revolução Francesa I e II, Liberalismo e a nova face da Revolução, Revolução Industrial, Revolução Socialista. Podemos perceber através da analise destes capítulos que o conceito de revolução é utilizado no livro para designar grandes mudanças políticas, sociais, econômicas. Podemos destacar a Revolução Neolítica que é apresentada como uma mudança de uma economia coletora para uma economia produtora, outro exemplo  são os conflitos políticos a respeito da alteração de regimes monárquicos para regimes democráticos, que desembocam em mudanças nas relações sociais. O livro didático de Luiz Koshiba quando se trata do termo revolução, sempre alude ao elemento que constitui ruptura e transformações. De acordo com a análise do livro não se problematiza o conceito de revolução, como proposto na apresentação do livro, mas problematiza conceitos como reforma e restauração nos capítulos em que se trata das revoluções.

 

 

Referencias Bibliográficas

 

KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto Editora; Editora PUC Rio, 2006.

 

OSTRENSKY, Eunice. As revoluções do poder. São Paulo: Alameda, 2005.

 

KOSHIBA, Luiz, 1945 – Historia: origens, estruturas e processos: ensino médio/ Luiz Koshiba. São Paulo: Atual, 2000.

 

 

 

Modernidade e o conceito de História: conceituações e relações

Modernidade e o conceito de História: conceituações e relações

 José Alves de Oliveira Junior, graduando em História pelo IFG campus Goiânia

        No texto “Modernidade: ontem, hoje e amanha” do autor Marshall Berman podemos nos aproximar do entendimento do que venha a ser a modernidade, abordando também como esta concepção sofreu modificações com o passar dos séculos. O autor define modernidade como um conjunto de experiências de tempo, espaço, de si mesma e dos outros. Segundo o autor, ser moderno é encontrar‑se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor ‑ mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, sabemos, e somos. A experiência ambiental da modernidade anula todas as fronteiras geográficas e raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia: nesse sentido, pode‑se dizer que a modernidade une a espécie humana. Porem é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade: ela despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia. Ser moderno é fazer parte de um universo no qual, como disse Marx, “tudo o que é sólido desmancha no ar”. Berman admite uma pós-modernidade, pois para ele, não estamos mais em uma modernidade, justamente porque as experiências são diferentes na atual sociedade. Assim constituindo as experiências como os meios de transformação do pensamento e dos conceitos, diferente do autor seguinte, que reconhece o tempo como categoria de transformação do pensamento.  Para o autor desde o século XVI até o término do XVIII, período no qual as pessoas não possuem uma percepção nítida do movimento proveniente da modernidade, ainda que estas possam estar inseridas de modo mais intenso neste. Logo o momento pós-revolucionário de 1790. Como expõe Marshall as pessoas detêm o sentimento de viver em meio as “ondas” revolucionárias e seus respectivos efeitos nos campos econômico, político e social; contudo este mesmo público simultaneamente traz marcado a experiência do que é estar em um mundo que não realizou outras tantas transformações.

No texto do autor koselleck “Historia Magistra Vitae – Sobre a dissolução do topos na história dos tempos modernos”, constitui-se uma reflexão sobre o surgimento do conceito moderno de história. Para o autor esta é a mais importante inovação conceitual da modernidade. Para a fundamentação de sua hipótese o autor mostra o significado do termo história em varias épocas, ao destacar que os termos tendem a se transformarem com o passar dos tempos. A transformação conceitual segundo Koselleck estaria ligada a dissolução da clássica expressão Historia Magistra Vitae que foi cunhada por Cícero e por dois mil anos permaneceu ilesa.

Até século XVIII a expressão era um indicio da vida humana, cujas histórias são instrumentos recorrentes apropriados para comprovar doutrinas morais, teológicas, jurídicas e políticas. Neste ensaio o autor destaca que no século XVI o termo “história” – em alemão Historie – podia significar tanto uma imagem quanto uma “narrativa” – em alemão Geschichte. No texto é destacado que no velho topos, a história era um lugar contendo múltiplas experiências alheias, das quais nos apropriamos com um objetivo pedagógico, ou seja a história nos deixa livres para repetir os sucessos do passado, em vez de incorrer, no presente, nos erros dos antigos.  Assim por muito tempo a história teve papel de uma escola, em que se poderia aprender a ser sábio e prudente sem incorrer nos erros dos antigos. Segundo o autor até meados do século XVIII o termo história era sempre usado no plural para designar narrativas particulares: a história da guerra do Peloponeso, a história da igreja. Estas narrativas tinham como função dar exemplos de vida para serem seguidos pelos contemporâneos e o passado sempre era usado como referencia temporal. Com o iluminismo esta referencia temporal é alterada, assim a Historie dá lugar a Geschichte. Este termo é usado para designar uma sequencia unificada de eventos que é visto como um todo. Assim a humanidade começa a fazer parte de um único processo temporal, que contem em si sua própria narrativa. A história torna-se o seu próprio objeto. Podemos perceber esta mudança na frase de Tocqueville para caracterizar um novo tempo que se inicia. “Desde que o passado deixou de lançar luz sobre o futuro, o espírito erra nas trevas”. A expressão Geschichte alude ao acontecimento em si e se fortaleceu ao mesmo tempo em que historie fui excluído do uso geral. A “história em si” este “singular coletivo” Geschichte, reunia a soma de todas as histórias individuais dentro de uma história universal, possibilitando assim um maior grau de abstração, reunindo num único conceito uma realidade e a reflexão sobre esta realidade. Por fim é destacado no texto que a Revolução Francesa colocou em evidencia o novo conceito de história da escola alemã. A ideia de coletivo singular possibilitou à história a força que reside em cada acontecimento que afeta a humanidade, aquele poder que a tudo reúne e impulsiona por meio de um plano oculto ou manifesto.  Houve uma mudança na referencia temporal do topos de natureza biológica para o topos de categoria de progresso segundo Koselleck.

 

Referencias bibliográficas:

KOSELLECK, Reinhart. Historia Magistra Vitae – Sobre a dissolução do topos na história dos tempos modernos In: Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto Editora; Editora PUC Rio, 2006.

 

BERMAN, Marshall. Modernidade: ontem, hoje e amanha. Tudo que é sólido desmancha no ar – A aventura da modernidade, Companhia das Letras, 1987.